Anatomia não é fisiologia

A angiografia coronária tradicional nos fornece um “mapa” anatômico das artérias do coração, mostrando onde estão as obstruções e qual o seu grau aparente de estreitamento. No entanto, essa imagem bidimensional nem sempre reflete o real impacto funcional daquela lesão. Uma obstrução que parece ser de 70% pode, em alguns casos, não estar limitando o fluxo sanguíneo de forma crítica, enquanto uma que parece de 50% pode estar causando isquemia significativa…

Dois pacientes com estenoses semelhantes na artéria descendente anterior. À esquerda, o traçado de pressão resulta em FFR de 0,97; à direita, em FFR de 0,53
Duas lesões parecidas, dois resultados opostos: na angiografia (acima), as estenoses da artéria descendente anterior são semelhantes; na medida de pressão (abaixo), a da esquerda tem FFR de 0,97 e não precisa de stent, enquanto a da direita tem FFR de 0,53 e merece tratamento. Adaptado de De Bruyne B, Sarma J. Heart, 2008.

O que é a reserva de fluxo fracionada?

A Reserva de Fluxo Fracionada (FFR) é uma medida fisiológica, realizada durante o próprio cateterismo cardíaco, que avalia exatamente isso: o impacto funcional de uma estenose coronária.

Simplificando, o FFR mede a diferença de pressão sanguínea antes e depois da obstrução, sob condições de hiperemia máxima.

Tecnologia de ponta a serviço da decisão

Em nosso grupo de cardiologistas, investimos em tecnologia de ponta e conhecimento especializado para oferecer diagnósticos e tratamentos cada vez mais precisos e personalizados. O FFR é um exemplo desse compromisso, nos permitindo tomar decisões terapêuticas mais embasadas e, muitas vezes, evitar procedimentos desnecessários, focando no que realmente trará benefício para a saúde do coração.

Se você tem lesões coronarianas obstrutivas, seja avaliado por especialistas

Como o FFR é medido

Hiperemia máxima

Um medicamento dilata ao máximo as pequenas artérias, simulando o coração em esforço intenso.

Fio-guia com sensor

Um fio muito fino, com sensor de pressão na ponta, ultrapassa a lesão a ser estudada.

O cálculo Pd/Pa

A pressão medida depois da lesão é dividida pela pressão na aorta. O resultado é o FFR.

As três etapas da medida do FFR, feita durante o próprio cateterismo. Ilustração OneHeart.

Hiperemia máxima

Para entender o verdadeiro impacto de uma obstrução, precisamos ver como ela se comporta quando o coração está trabalhando ao máximo e demandando o maior fluxo sanguíneo possível (como durante um exercício intenso). Durante o FFR, administramos um medicamento (geralmente adenosina) que dilata ao máximo as pequenas artérias do coração, simulando essa condição de esforço máximo. É um estado seguro e transitório, essencial para a precisão do exame.

A medida

Um fio-guia especial, muito fino e com um sensor de pressão em sua ponta, é avançado através do cateter até a artéria coronária, ultrapassando a lesão a ser estudada. Com o coração sob hiperemia máxima, medimos a pressão distal à lesão (Pd) e a comparamos com a pressão na aorta (Pa, antes da lesão). O FFR é o resultado da divisão Pd/Pa.

Diagrama comparando uma artéria sem obstrução, em que a pressão se mantém em 100 até o músculo cardíaco, com uma artéria com estenose, em que a pressão cai de 100 para 70 depois da obstrução
Por que medir pressão responde sobre fluxo: na artéria sem obstrução (acima), a pressão chega ao músculo praticamente inalterada. Com uma estenose (abaixo), a pressão cai de 100 para 70 depois da lesão — e o fluxo máximo cai na mesma proporção. Adaptado de De Bruyne B, Sarma J. Heart, 2008.

Como interpretar o resultado

Um valor de FFR de 1.0 significa que não há nenhuma limitação ao fluxo. Quanto menor o valor do FFR, maior o impacto da obstrução no fluxo sanguíneo.

O valor de 0,80 é o ponto de corte usado na prática para separar as lesões que causam isquemia daquelas que não causam. Ilustração OneHeart.
Tela do laboratório de hemodinâmica com as curvas de pressão da aorta em vermelho e distal à lesão em verde, e o valor de FFR de 0,58 em amarelo
Exemplo de medições das pressões da aorta (em vermelho) e distal à lesão (em verde), com cálculo do FFR (em amarelo). Adaptado de De Bruyne B, Sarma J. Heart, 2008.

E por que o FFR faz a diferença?

A principal vantagem do FFR é sua capacidade de identificar quais estenoses estão realmente causando isquemia miocárdica (falta de oxigênio para o músculo cardíaco) e, portanto, quais se beneficiariam de um tratamento como a angioplastia com stent.

Os benefícios de usar o FFR para guiar o tratamento incluem:

  • Custo-efetividade: ao evitar procedimentos desnecessários, a estratégia guiada por FFR também se mostrou mais custo-efetiva.
  • Evitar stents desnecessários: se o FFR de uma lesão intermediária (por exemplo, entre 50% e 70% na angiografia) for superior a 0.80, isso indica que a lesão não está causando isquemia significativa. Nesses casos, o tratamento clínico otimizado (com medicamentos) costuma ser a melhor abordagem, evitando os riscos e custos de um implante de stent que não traria benefício adicional.
  • Tratar apenas o que precisa ser tratado: em pacientes com múltiplas lesões, o FFR ajuda a identificar qual/quais delas são culpadas pela isquemia, direcionando o tratamento para as lesões funcionalmente importantes.
  • Melhores resultados a longo prazo: estudos clínicos robustos, como o FAME (Fractional Flow Reserve versus Angiography for Multivessel Evaluation), demonstraram que a estratégia guiada por FFR em pacientes com doença coronária multiarterial resulta em melhores desfechos clínicos, incluindo redução de eventos cardíacos adversos maiores (morte, infarto e necessidade de nova revascularização), quando comparada à estratégia guiada apenas pela angiografia.
Menos stents e menos eventos: resultados em 1 ano do estudo FAME, em pacientes com doença coronária multiarterial. Gráfico OneHeart a partir de dados de Tonino PA et al., N Engl J Med, 2009.

Em nosso grupo de cardiologistas, a utilização do FFR é uma prática rotineira em casos selecionados, reforçando nosso compromisso com uma medicina baseada em evidências e centrada no paciente.

Dois cardiologistas da equipe OneHeart paramentados no Centro de Hemodinâmica, com o monitor de angiografia ao fundo
Equipe da OneHeart realizando procedimento no Centro de Hemodinâmica do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC). Exemplo de como o cálculo do FFR pode auxiliar na decisão de realizar a angioplastia.

Além da imagem: uma decisão baseada na fisiologia

A Reserva de Fluxo Fracionada (FFR) revolucionou a forma como avaliamos e tratamos a doença arterial coronariana. Ela nos permite ir além da imagem anatômica, compreendendo o real significado fisiológico de uma obstrução. Ao incorporar o FFR em nossa prática, nosso grupo de cardiologistas reafirma o compromisso de oferecer o tratamento mais adequado, seguro e eficaz para cada paciente, otimizando os resultados e melhorando a qualidade de vida.

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Perguntas frequentes

O FFR adiciona risco ao cateterismo cardíaco?

O FFR é um procedimento muito seguro. Os riscos adicionais ao cateterismo padrão são mínimos e geralmente relacionados à passagem do fio-guia ou aos efeitos transitórios da adenosina. Nossa equipe experiente toma todas as precauções para minimizar qualquer risco. Explicaremos todos os riscos em uma avaliação presencial.

Se a angiografia mostra uma obstrução, por que não tratá-la sempre com stent?

Colocar um stent quando não é necessário não traz benefício adicional e adiciona os riscos inerentes ao procedimento. A angiografia mostra a anatomia, mas não necessariamente a fisiologia (o impacto no fluxo). Muitas obstruções visualizadas não limitam o fluxo sanguíneo de forma significativa a ponto de requerer um stent. O FFR nos ajuda a identificar precisamente quais lesões se beneficiarão do tratamento, evitando intervenções em lesões que podem ser seguramente manejadas com medicação.

Em quais situações o FFR é mais utilizado?

O FFR é particularmente útil para avaliar lesões coronárias de gravidade intermediária (geralmente entre 40% e 70% de obstrução visual pela angiografia), em pacientes com doença em múltiplas artérias para decidir quais lesões tratar, ou quando há discordância entre os sintomas do paciente e os achados da angiografia ou de testes não invasivos.

Referências

Créditos das imagens

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