Entendendo o TAVI: o que é essa técnica?

Imagine substituir uma valva cardíaca defeituosa sem uma grande cirurgia, sem abrir o osso do peito e, muitas vezes, sem anestesia geral profunda. É isso o TAVI (do inglês Transcatheter Aortic Valve Implantation, também chamado de TAVR): um procedimento minimamente invasivo no qual uma nova valva aórtica, feita de tecido biológico montado sobre um stent metálico, é implantada dentro da valva doente.

A nova valva é compactada e inserida por um cateter (um tubo fino e flexível), geralmente pela artéria femoral, na virilha. Guiado por imagem até o coração, o dispositivo é posicionado dentro da valva aórtica antiga e então expandido, afastando os folhetos calcificados e assumindo imediatamente a função de controlar o fluxo de sangue.

Imagem de fluoroscopia mostrando a prótese valvar já implantada na posição da valva aórtica
Prótese valvar (nova válvula) implantada na posição da valva aórtica, vista por fluoroscopia durante o procedimento.

Acesso por cateter

Um cateter fino sobe por uma artéria, em geral a femoral, na virilha, até a valva aórtica.

Posicionamento

A nova válvula, compactada na ponta do cateter, é levada até dentro da valva doente.

Expansão

A válvula é expandida, afasta os folhetos antigos e assume a função na hora.

Como funciona o TAVI, em três etapas. Ilustração OneHeart.

Estenose aórtica: o problema que o TAVI trata

A principal indicação do TAVI é a estenose aórtica grave e sintomática, quando a valva não abre completamente por causa da calcificação e do enrijecimento dos folhetos. Isso tem consequências em cascata:

  • O sangue tem dificuldade para sair do ventrículo esquerdo em direção à aorta.
  • O coração passa a fazer muito mais força para vencer a valva estreitada.
  • Com o tempo, esse esforço leva ao espessamento do músculo (hipertrofia), perda de força e, por fim, insuficiência cardíaca.

Sintomas de alerta

  • Falta de ar, sobretudo aos esforços
  • Dor ou pressão no peito (angina)
  • Tontura ou desmaio, principalmente ao esforço
  • Cansaço e queda no rendimento das atividades do dia a dia

Para quem o TAVI é indicado?

No início, o TAVI foi criado para pacientes de alto risco cirúrgico ou inoperáveis. Com a evolução da técnica e a comprovação de segurança e eficácia em grandes estudos (como as séries PARTNER e Evolut), as indicações se ampliaram. Hoje o TAVI pode ser considerado para:

  1. Alto risco cirúrgico: pacientes idosos, com várias comorbidades ou fragilidade.
  2. Risco intermediário: em muitos casos, com resultados equivalentes (ou superiores) aos da cirurgia.
  3. Baixo risco cirúrgico: estudos recentes mostraram excelentes resultados também nesse grupo, tornando o TAVI uma opção cada vez mais considerada, especialmente em pacientes mais velhos.
Desfechos em 5 anos no estudo PARTNER 3 (pacientes de baixo risco). Gráfico OneHeart a partir de dados de Mack MJ et al., N Engl J Med, 2023.

A decisão é sempre do HeartTeam

A escolha entre TAVI e cirurgia é individualizada e tomada por uma equipe multidisciplinar (cardiologistas clínicos, intervencionistas, cirurgiões, anestesistas e especialistas em imagem), que avalia a saúde geral, a gravidade da estenose e a anatomia da valva e dos vasos de cada paciente.

A jornada do paciente, passo a passo

Antes do procedimento. Avaliação completa, com ecocardiograma, tomografia computadorizada e, às vezes, cateterismo cardíaco, para planejar cada detalhe.

Durante o procedimento. Realizado no centro de hemodinâmica, sob anestesia geral ou sedação. O acesso costuma ser pela artéria femoral; o cateter é guiado até o coração por fluoroscopia e ecocardiografia, e a nova valva (balão-expansível ou autoexpansível) é implantada em cerca de 1 a 2 horas.

Depois do procedimento. Monitorização por um curto período em ambiente intensivo. O paciente costuma caminhar já no dia seguinte, e a internação em geral dura de 1 a 3 dias, bem menos que na cirurgia convencional.

Benefícios claros e riscos considerados

Principais benefícios

  • Minimamente invasivo, sem abertura do esterno
  • Recuperação mais rápida e menos tempo de internação
  • Alívio importante da falta de ar e da angina, com ganho de qualidade de vida
  • Opção segura e eficaz para quem tem alto risco cirúrgico

Riscos a considerar

  • Sangramento ou hematoma no local de acesso
  • Vazamento paravalvar
  • Eventual necessidade de marca-passo definitivo
  • Acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência renal
  • Complicações relacionadas à prótese

A experiência da equipe e o planejamento cuidadoso são decisivos para reduzir esses riscos. Seguimos protocolos rigorosos de segurança e discutimos riscos e benefícios com cada paciente antes de decidir.

A vida após o TAVI

A recuperação costuma ser rápida, com retorno gradual às atividades. As orientações mais comuns são:

  • Uso de medicamentos antiplaquetários (por exemplo, aspirina e/ou clopidogrel), conforme a prescrição.
  • Acompanhamento regular com o cardiologista e ecocardiogramas periódicos.
  • Hábitos saudáveis: alimentação equilibrada e atividade física orientada.

Perguntas frequentes

O TAVI é uma cirurgia grande?

Não. O TAVI é minimamente invasivo. Diferentemente da cirurgia tradicional, não há corte no osso do peito e o coração não precisa ser parado.

Quanto tempo dura a válvula implantada?

As válvulas do TAVI são biológicas e têm mostrado boa durabilidade. Os estudos de longo prazo seguem trazendo dados positivos, embora a durabilidade exata possa variar de pessoa para pessoa.

O procedimento dói?

Ele é feito sob anestesia ou sedação profunda, então o paciente não sente dor durante a intervenção. Pode haver um leve desconforto na virilha depois, controlado com analgésicos comuns.

Referências

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